Inverness Season - Ep 44, Sheftu
Sheftu já vivera muitas batalhas, já fugira demasiadas vezes
para serem contadas. Já perdera tanto que não conseguia compreender porque,
mais uma vez, parecia fracassar numa nova batalha diante de recém-nascidos. Ela
fora, mais uma vez, uma escrava levada pelos inimigos que desejavam seu corpo.
Mas… Para quê?
“Living Past” by Sheftu Nubia
Abri meus olhos, ainda em viagem, sentia todo o meu corpo a
doer, a fraqueza teimava em permanecer ardente nas minhas veias, deixando-me
impune perante esta estupidez. Não sabia porque Pan teria organizado tal
esquema, não haveria razões para tentar matar-nos a todos. Será que havia mais
alguém que tivesse sido capturado? Sinceramente, eu desejava que não.
- Precisas de outra injecção? – Perguntou-me Pan, ao ver-me
a rastejar pelo chão do que parecia ser uma carrinha, sentada num banco de lado
com um vampiro, certamente ainda bastante jovem pela aparência.
Observei o outro lado e estava um outro, era provável que
fossem aqueles que me levaram, apesar de não me recordar ao certo da minha
saída. Tentei morder-lhe o pé, mas deu um pulo e conseguiu livrar-se da minha
tentativa de a fazer calar.
- Talvez o melhor seja mesmo sedá-la novamente. – Disse um
dos guarda-costas da idiota-mor.
- Agrada-me a ideia... – Respondeu, sorrindo. Tentei
escapar, inutilmente, sentindo algo a entrar sobre a minha pele. – Bons
sonhos...
O vazio chegou novamente, meus sentidos se apagaram e eu
deixei-me ir. Não havia mais nada a fazer, estava sobre as mãos dela. Até que
um dia me erguesse de novo, despedaçasse cada parte do seu corpo e sorrisse
pela tortura que surgisse no seu olhar. Agora o que precisava eram forças,
entreguei-me à sina e pousei pelo tempo.
Havia vozes que pareciam existir ao longe, sem sequer me
importar muito com o assunto. Mas que elas estavam ali, estavam. Não sabia bem
o porquê, mas não queria sequer abrir meu olhar, sentia que o melhor era a
ignorância dos factos do que a constatação da realidade.
Meu corpo não estava mais sobre o chão, eu podia sentir que
a textura era bem diferente. O tempo era a minha principal incógnita, não sabia
há quantas foram as horas em que minha mente deixou de existir. Morri?
Certamente seria simples demais, com toda a certeza de que ainda devo estar
algures pelo mundo a quem permaneci cativa.
- Achas que ela demora muito tempo a voltar a si? –
Perguntou uma voz que conhecia demasiado bem. Reagindo a essa voz, abri
instintivamente o olhar e vi o que talvez fosse melhor nunca voltar a ver.
Kiya e Pan, permaneciam as duas a observar-me.
- Acho que tens aqui a tua resposta. – Disse Pan,
voltando-se e saindo do quarto.
Desviei o olhar quando nossos corações se cruzaram, ainda
era bem viva em mim aquela imagem de sua própria mão a tentar retirar de mim o
sangue, mesmo sem que soubesse sequer a razão. Traição seria sempre traição, de
um certo modo já me traíra, tentando provocar em mim a derradeira morte. Apenas
seriam mais uns momentos para que tentasse novamente, não tardaria muito a
acontecer, o que me provocava uma angústia enorme dentro de mim.
- Veste isto, Gustav estava à espera que acordasses. –
Disse-me ao aproximar-se uma mulher jovem, observei-a atentamente, seu corpo
marcava a brutalidade acrescentada a cada dia que permanecia junto de este grupo
sem escrúpulos. Passei a mão sobre os meus olhos e suspirei, erguendo-me e
aproximando-me da mulher que se ajoelhara, esticando para mim o meu suposto
traje.
- Posso vestir-me em paz? – Perguntei-lhe, permanecendo a
olhar para a mulher que se prostrava diante de mim.
- Espero que não tentes escapar, por mais que desejes, não o
conseguirás. Ficarei à porta. Não te demores. – Vociferou, saindo do quarto,
fechando gravemente a porta atrás de si.
Toquei no ombro da mulher, retirando o vestido de suas mãos
e atirando-o para qualquer lugar, sem grande cerimónia. A minha outra mão
ergueu a sua face, olhos emergidos em dor e mágoa, perdidos algures pela
destruição usada em seu corpo, relembrando-me de momentos crus e reais de há
uns milénios atrás.
- Desculpa por sofreres tanto. – Disse, tentando sorrir-lhe,
provocando-lhe um arrepio por todo o corpo, expressão de medo extremo. Já não
era um ser humano que permanecia sobre as minhas mãos, restos de uma alma que
já se fora, perdida algures pelos momentos de tormenta profunda. Tentou escapar
de mim, libertei-a e sentei-me.
Seu corpo se tinha encostado sobre uma das paredes,
segurando-se como se algo de muito mau acontecesse de seguida. Aproximei-me aos
poucos, captando cada instinto que nela berrava para que permanecesse o mais
longe de mim possível, o mesmo instinto que me gritara vezes e vezes sem conta
sobre as lágrimas que já não mais saiam de tanto secas que se tinham tornado.
- Eu sei o que sentes. – Disse calmamente, ajoelhando-me
perante ela e colocando as minhas mãos em sua direcção. Não seria eu que lhe
tocaria novamente, poderia ficar eternamente à espera, mas talvez num momento
ela poderia confiar em mim, tal como eu confiara em Ian, tal como confiara na
minha força para tirar Kya das mãos de seu pai – inutilmente.
Bateram rapidamente à porta, senti toda a sua pulsação
aumentar e toda a sua carne estremeceu. Rapidamente tirei qualquer roupa que
vestia, enrolando-me sobre o lençol da cama – faltando algo melhor – e
aproximei-me da porta, deixando uma pequena abertura para que pudesse ver quem
era.
- Demoras muito? – Perguntou-me Kiya, certamente farta de
esperar.
- Demorarei o tempo que for necessário. – Respondi no mesmo
tom que ela, acelerando assim a sua raiva no olhar, impotente.
- Tudo bem, depois não te queixes caso Gustav não gostar de
tanta demora.
- De Gustav trato eu, obrigada. – Respondi-lhe rapidamente,
fechando-lhe a porta antes que pudesse sequer ripostar qualquer coisa.
Vesti o que a mulher tinha trazido e aproximei-me novamente
dela, que permanecia exactamente no mesmo local, ainda a temer a minha
presença.
- Um dia sairei daqui e te levarei comigo. – Saiu de mim uma
ânsia enorme perante as palavras que constantemente chacinavam a minha mente,
estava agora sobre o seu ouvido, segurando o seu corpo que desejava escapar de
mim o mais rapidamente possível. – Serás novamente livre, ensinar-te-ei algo
que precisarás para o resto da tua vida. Basta apenas quereres, tudo será como
quiseres.
Finalmente acalmara a pobre alma, seus braços quentes
envolveram a minha pele, pedindo amparo sobre todo aquele peso que detinha
sobre as memórias de um passado demasiado perto, um ainda presente.
- Achas que consegues? – Continuei, quase em surdina para
que ninguém me ouvisse.
Afastei-me, vendo-a a observar-me com o seu olhar aberto,
tentando até sorrir sem grande sucesso. Afirmou com a cabeça e levantou-se,
seguindo caminho à porta e saindo. Era a hora em que veria o meu passado
novamente sobre a minha morte...
À minha frente seguia ela, Kiya, com dois seguranças, seguindo
caminho para a sala do trono. Estavam cerca de cinco vampiros a rodearem-me
bastante próximos, permanecendo outros por perto, mas não tão próximos.
Certamente calculando a minha fuga, tentando alcançar sempre primeiro do que eu
cada movimento que eu pudesse fazer.
A noite via-se nebulosa, não havia estrelas nem lua que
aparecessem pelas janelas fechadas. Esta marcha que teimava em ser
dolorosamente longa começava a enervar-me, mas não demoraria muito até que o
passado voltasse até mim...
Na minha mente tentava relembrar-me de alguma forma de
escapar, de conseguir levar aquela mulher comigo cujo nem o nome sabia. E,
preferencialmente ainda viva. Era curioso como o tempo parecia não existir,
como se parasse e nunca mais pudesse voltar ao normal.
Sentia vontade de correr, de salvar-me e voltar para o lugar
de onde me tinham levado. Preocupava-me saber que poderiam estar mortos todos
aqueles que lutaram comigo durante os meus últimos momentos de liberdade.
Poderia estar aqui, presa e longe deles, mas meu coração jamais se prendera.
Como um coração morto poderá bater novamente? Essa era uma
resposta que me fazia pensar nele, de como tínhamos passado os últimos tempos.
Por vezes poderia ser idiota a forma como ambos agíamos, mas a realidade é que
éramos assim. Apenas nós sabíamos como viver toda essa intensidade e destruição
que nos separava agora, unindo-nos outrora.
- Vejo que não mudaste nada! – Ouvi a sua voz desprezível,
olhando para ele dirigindo-se a mim.
Kiya ao ver a aproximar-se, movimentou seu corpo como se
fosse ter algum contacto com Gustav, que passou por ela sem sequer reparar
nela, prosseguindo até ao seu destino: eu.
A fúria que permanecia sobre o seu olhar gélido era algo que
realmente me tocava profundamente, como poderia ser ela sangue do meu sangue
primordial? Nada nela e em mim é o mesmo, família nunca a tive depois da minha
morte. E, agora que começara a sentir-me em casa, tinham-me novamente retirado
do meu lar, destruindo a suposta paz que poderia surgir durante as tempestivas
vidas de eterna loucura com Eric.
Gustav abraçou-me fortemente, segurando o meu cabelo e
inalando o meu perfume, tentando relembrar talvez os outros momentos, em que
criara uma ilusão pela qual tinha pagado caro.
- Vejo que tens algo mais além do teu cheiro natural. –
Respondeu-me um pouco curioso sobre que perfume seria aquele, afastando-se um
pouco para que pudesse fitar-me.
- Sim, ultimamente tenho sentido muito o perfume do Eric. –
Respondi com um sorriso, o que enraiveceu profundamente aquele vampiro milenar
à minha frente.
- Bem, mas isso irá mudar brevemente... Eu próprio tratarei
do assunto. – Perante tal afirmação não contive uma gargalhada alta, observando
a sua expressão que me provocava mais riso ainda.
- O quê? Vais tentar matá-lo? Gostava de ver-te tentar. –
Respondi-lhe num tom de desafio.
- Devias de ter cuidado com o que dizes... Não estás mais
junto daquela pocilga.
- Pois não... – Afirmei, tentando manter as gargalhadas de
fora, para que conseguisse manter uma postura séria. – Trouxeram-me para uma
pocilga maior...
- Observo que permaneces presunçosa como sempre...
- Oh, meu caro... Se fosse apenas isso que agora tenho. –
Seu olhar se abriu por completo, agarrando o meu braço e empurrando-me para uma
sala mais pequena, pedindo desculpa aos seus súbditos e fechando a porta atrás
de si.
- O que pensas que estás a fazer? – Perguntou-me, chegando
as suas mãos à nuca.
- Apenas estou a ser quem sou. Foi uma ideia idiota tentares
trazer-me de novo. Já devias de saber disso.
- Vejo que te esqueceste de como trato das coisas aqui. Caso
continues com esse comportamento completamente...
- O quê? Vais torturar-me novamente? Ou tentar esturricar-me
um pouco ao sol? Ah ah ah... Queria ver-te a tentares.
- Não me subestimes.
- E eu digo o mesmo. Porque achas que me conseguiste trazer?
Se não fosse a parva daquela tua nova amiga, jamais estarias a ver-me
novamente. Só mesmo quando estivesse a matar-te. – Respondi, escarnecendo em
cada palavra que tinha dito.
- Não piores a situação para o teu lado...
- Não te preocupes, eu farei exactamente isso.
- Achas que permitirei que continues a ser assim? Nenhuma
mulher minha me desautoriza perante todo o meu grupo, nem tu!
- Primeiro, não sou nem nunca fui tua. O teu maior defeito
foi a ideia absurda de me transformares, agora não tenho nada a perder.
- Eu creio que tens... Não te esqueças do teu protegido.
- Pensas que vais conseguir aproximar-te dele? –
Perguntei-lhe, despertando em mim outra gargalhada.
- Como te disse, tratarei de tudo brevemente. – Disse com o
seu tom triunfante, seguindo novamente para a sala, dando ordens para que me
escoltassem novamente para o quarto.
Eu
não acreditava que ele conseguisse fazer-lhe algo, não conseguiria... Ou iria?
Pelo que me lembro, Pan seria o braço direito de Eric. Estaria ela com alguma
informação que pudesse pô-lo em perigo? Não, não podia haver. Eu não ia
permitir que tal coisa fosse possível, não agora... Não podia.
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